Diante do espelho: A auto-imagem do cliente portador de lesão crônica

Diante do espelho: A auto-imagem do cliente portador de lesão crônica
ENFERMAGEM
Atualmente a abordagem ao tratamento da ferida incorporou saberes, e grandes avanços em termo de tecnologia moderna, e novas coberturas surgiram contribuindo para o tratamento tópico da lesão. A Enfermagem ganha um grande campo de atuação, com a busca do conhecimento através das ciências que nele incidem, e muitos profissionais buscam a especialização nesta área do conhecimento.

Durante a abordagem do tema nos cursos de formação atualização e aperfeiçoamento em feridas observa-se que a expectativa do público (profissionais de saúde), está centrada no aprimoramento técnico. Primeiramente buscam-se inovações e tecnologia de ponta para o atendimento, isto é, o cuidado encontra-se sob a ótica do fazer, voltado para a fisiologia da cicatrização, indicações, mecanismos de ação e reações adversas.

É de suma importância que o cuidado esteja fundamentado nesta cientificidade, ou seja, conhecer o processo fisiopatológico é fundamental, contudo observamos que a técnica vem sobrepondo à relação humana do portador de lesão e o cuidador. Este fato é notável, à medida que o cuidador não identifica mais o corpo que sofre e suas reações, mas apenas uma lesão, desvinculando assim, de sua prática, o significado da palavra CUIDADO.

Observamos uma prática rotineira desgastante para o profissional de saúde isso pode estar relacionado à demanda de atribuições e as dificuldades institucionais, que torna o profissional cada dia mais centrado no ato de executar tarefas e sem envolvimento com a história de vida, ou a subjetividade do ser cuidado.

Não raro na realidade hospitalar, a equipe de enfermagem cuida de pacientes que compreendem todo o processo de sua doença, que são membros ativos na sociedade, porém são portadores de lesões de pele. As consequências sofridas por esses indivíduos com feridas são muitas e se devem ao fato de ser um problema visível, impresso na pele, e que nega aos seus portadores o direito de ocultá-las, tornando-a pública. Este fato somado à desinformação da população e dos profissionais desencadeia uma serie de problemas, fazendo com que estas pessoas sejam estigmatizadas, isoladas e emocionalmente abaladas.

Desse modo, não basta conhecer o processo cicatricial e todos os recursos disponíveis, mas compreender a representação do corpo ferido para o portador, o que o limita, como ele encara a mudança em seu corpo? Como garantir a sua reabilitação social?

Embora os profissionais atualmente saibam que existem vários fatores que interferem nesse processo, tais como: condições nutricionais, doenças preexistentes, terapia medicamentosa utilizada, os aspectos relacionados diretamente à lesão como necrose, infecção, hematoma, isquemia e as questões emocionais relacionados com a subjetividade, a autoimagem e autoestima que podem interferir neste processo cicatricial já que a imagem refletida diante do espelho geram sentimentos e ações que podem comprometer o auto cuidado e adesão ao tratamento.

Sendo assim, a lesão sob o olhar alheio pode ser subestimada, ou seja, não ter o reconhecimento e as implicações que esta causa ao seu portador, ou emanar reações não esperadas, valorizando a gravidade da ferida, onde em alguns casos já apresenta alguma evolução, não perceptível aos olhares de curiosos, causando constrangimentos.

O portador de uma ferida crônica apresenta alteração na qualidade de vida, não só pela perda da integridade cutânea, mas pelos fatores relacionados, que influenciam nesta qualidade de vida, tais como: diminuição da independência, perda da intimidade e privacidade, falta de apoio familiar, incapacidade ou imobilização, ausência de suporte assistencial, falta de apoio emocional, ausência de um ambiente estável, falta de recursos materiais para enfrentar sua nova condição, perda ou diminuição da capacidade para desempenho das atividades diárias, modificações de hábitos comportamentais, alteração de sua integridade física, alteração da autoestima, entre outros. [4]

Através destas considerações, se faz necessário repensar a prática de enfermagem no tratamento da ferida reordenando os instrumentos deste processo, no que concerne, a ligação da fiel execução da técnica, as tecnologias e a interface com o portador de lesão crônica. Primeiramente nos reportando ao portador da lesão, com sua história, contexto sócio-cultural e como representa a lesão em sua vida; posteriormente realizar o levantamento das necessidades do cliente para dispensar os cuidados necessários, cuidados estes numa dimensão física e emocional.

Sob este prisma, é possível compreender a influência dos fatores externos as respostas orgânicas, o efeito insatisfatório do uso tópico dos tratamentos de última geração a lesão, as doenças psíquicas interferindo na fisiologia da cicatrização.

Objetivando trazer reflexões sobre o cuidado de enfermagem ao portador de lesões crônicas, é um desafio aos profissionais de enfermagem a adquirirem coragem de se olharem diante de seu próprio espelho e resgatar essa essência do cuidado que encontra-se no juramento, quando assumimos nossa profissão, e que vai além da cura e da doença, mas valoriza bem estar biopsicossocial como elemento do processo de cuidar.

Natalia da Palma Sobrinho
Formação: Bacharel em Enfermagem ( 2004-2007) Experiência Profissional: 01/ 2013 - 1º Tenente(RM2-S) Enfermeira - Marinha do Brasil 08/2011 - Enfermeira Responsável Técnico - Facility Soluções Corporativas ( Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia) 05/2011 - 10/2011 - Hospital Badim ( CTI ) 11/2008/ 03/ 2011 - Hospital Quinta Dor ( Unidade de Internação e Unidade semi-intensiva)
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